30 de junho de 2026
Por que o agronegócio bate recorde de recuperações judiciais em meio a safra forte e crédito caro
O agronegócio brasileiro chega a 2026 sob uma combinação rara de fatores: alta produtividade no campo, mas crescente deterioração financeira na ponta. O resultado dessa equação aparece no aumento das recuperações judiciais, que atingiram 1.990 pedidos em 2025, segundo dados da Serasa Experian, o maior volume da série histórica iniciada em 2021.
O número representa um salto de 56,4% em relação a 2024 e quase quatro vezes mais do que em 2023, quando foram registradas 534 solicitações. Mesmo sem novos dados consolidados para 2026 até o momento, especialistas afirmam que o cenário segue pressionado e sem sinais claros de reversão estrutural.
Para analistas do setor, o ponto central não está na produção agrícola, que segue forte, mas na estrutura financeira que sustenta essa produção. “O produtor não está necessariamente produzindo menos, mas está ganhando menos por saca, com um custo muito mais alto para produzir. Quando você junta insumo caro, crédito caro e preço volátil de commodity, o resultado é compressão direta de margem”, avalia Denis Barroso, sócio da Barroso Advogados Associados e especialista em recuperação empresarial.
Juros altos e crédito mais restrito mudam o jogo no campo
Um dos principais vetores dessa pressão é o ambiente de juros elevados no Brasil, que tem impacto direto sobre o custo de financiamento do agronegócio. “Hoje o custo do dinheiro virou um dos maiores problemas do setor. O produtor que refinanciou dívida nos últimos anos fez isso em um ambiente que já era caro, e agora está ainda mais restritivo. Isso cria uma bola de neve de endividamento”, explica Barroso.
Ele acrescenta que o problema se espalha pela cadeia. “Quando o crédito aperta no agro, isso não fica restrito ao campo. Afeta cooperativas, tradings, transportadoras e até o sistema financeiro regional, que depende dessa circulação.” Os sinais dessa deterioração também aparecem na inadimplência rural. A Serasa Experian aponta que 8,3% da população rural estava inadimplente no terceiro trimestre de 2025, alta de 0,9 ponto percentual em relação ao ano anterior.
Um setor produtivo, mas financeiramente fragilizado
A aparente contradição entre safra recorde e crise financeira é, segundo especialistas, um dos pontos mais sensíveis do momento. “O Brasil continua sendo extremamente competitivo em produção agrícola. O problema é que eficiência produtiva não está se convertendo em saúde financeira. O produtor está produzindo bem, mas pagando caro demais para financiar essa produção”, analisa Denis Barroso.
Para ele, o ciclo recente de expansão do crédito no agro deixou uma herança. “Houve um período de expansão forte de crédito, com premissas que hoje não se sustentam mais. Muitos produtores foram alavancados em condições que mudaram completamente com juros altos e retração do crédito bancário.”
Com o aumento dos pedidos de recuperação judicial, o sistema financeiro também passou a operar de forma mais cautelosa. “Os bancos estão muito mais seletivos. Não é só uma questão de negar crédito, mas de encarecer e exigir garantias muito mais robustas. Isso, na prática, reduz a capacidade de investimento e de giro das empresas”, afirma Barroso.
Esse movimento, segundo o advogado, cria um efeito de desaceleração em cadeia. “Quando o crédito trava, o investimento cai. Quando o investimento cai, toda a cadeia do agronegócio sente, desde o fabricante de máquinas até o transporte.”
Crise não é exclusiva do campo
Embora o agronegócio concentre os números mais expressivos de recuperação judicial, o fenômeno não é isolado. Empresas de diferentes setores também têm recorrido ao instrumento, como Oi, Ducoco, Grupo ST e Bombril.
Para especialistas, isso reforça que o ambiente econômico brasileiro como um todo segue desafiador. “O que estamos vendo não é um problema setorial, é um ambiente macroeconômico mais difícil. Juros altos, crédito restrito, incerteza fiscal e pressão global formam um cenário que afeta praticamente todos os setores”, afirma Barroso.
Na avaliação dos especialistas, a recuperação judicial tem sido usada cada vez mais como resposta tardia a problemas estruturais de gestão e financiamento. “A recuperação judicial não pode ser vista como estratégia inicial. Ela é uma ferramenta de reorganização, mas quando chega cedo demais ou sem planejamento, tende a prolongar a crise”, diz Denis Barroso.
Ele reforça a necessidade de antecipação. “O erro mais comum é esperar a crise se tornar insolúvel. Em muitos casos, ainda há alternativas antes da recuperação judicial, como renegociação estruturada, reorganização operacional e atração de investidores.”
Nesse sentido, a análise técnica ganha peso. “Cada empresa precisa entender seu nível real de alavancagem e sua capacidade de geração de caixa. Sem isso, qualquer decisão vira tentativa e erro”, completa Barroso.
Alternativas e reestruturação ganham relevância
Para o especialista em reestruturação empresarial Benito Pedro, sócio da Avante Assessoria Empresarial, o momento exige uma mudança de postura por parte das empresas. “O cenário atual exige uma leitura muito mais estratégica da estrutura de capital. Não é mais possível operar apenas no curto prazo, empurrando passivos. Isso não se sustenta com juros elevados e crédito mais restrito”, afirma.
Ele destaca que a recuperação judicial deve ser apenas uma das alternativas dentro de um conjunto maior de estratégias. “Antes de qualquer medida judicial, é fundamental avaliar renegociação com credores, revisão operacional e até entrada de capital novo. A recuperação judicial deve ser uma última etapa dentro de um processo estruturado, não o primeiro movimento”, diz Benito.
O aumento das recuperações judiciais no agronegócio funciona como um termômetro mais amplo da economia brasileira. Mais do que um problema localizado no campo, o movimento revela um ambiente de negócios pressionado por juros elevados, crédito restrito e incertezas econômicas globais.
A tendência, segundo especialistas, é que esse cenário continue exigindo disciplina financeira, planejamento mais rigoroso e gestão ativa de risco. “O ambiente atual não perdoa desalinhamento financeiro. Empresas que não ajustarem sua estrutura de capital vão continuar enfrentando dificuldade de sobrevivência, independentemente do setor”, resume Denis Barroso.
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