29 de abril de 2026

Recuperação judicial recorde no primeiro trimestre reforça importância da gestão e dos dados 

 

O Brasil atingiu um novo patamar no número de empresas em recuperação judicial. Apenas no primeiro trimestre deste ano, 5.931 companhias estavam em processo de reestruturação, um crescimento de 4,4% em relação ao trimestre anterior e de 22% na comparação com o mesmo período do ano passado. No intervalo entre janeiro e março, foram deferidos 319 pedidos, que concentram aproximadamente R$ 18 bilhões em dívidas, segundo o Monitor RGF de Recuperação Judicial.

Trata-se da 11ª alta consecutiva da série histórica iniciada em 2023, consolidando um cenário de pressão contínua sobre o ambiente corporativo brasileiro. Mais do que um dado isolado, o avanço reflete um conjunto de fatores estruturais que vêm dificultando a sustentabilidade financeira das empresas.

Pressão econômica e crédito caro ampliam risco empresarial

O aumento das recuperações judiciais está diretamente ligado ao ambiente macroeconômico. Juros elevados, crédito mais restrito, consumo enfraquecido e custos operacionais em alta têm comprimido margens e reduzido a capacidade de geração de caixa das empresas.

Esse cenário afeta de forma mais intensa setores como varejo, indústria e serviços, que dependem diretamente do consumo e enfrentam maior dificuldade para equilibrar receitas e despesas em períodos prolongados de instabilidade.

“O mercado brasileiro, assim como muitos países ao redor do mundo, tem enfrentado grandes dificuldades para se recuperar pós-pandemia, com as guerras e agora com as taxações. As oscilações políticas e econômicas globais têm grande impacto no cenário econômico interno. Os principais players do mercado sobreviveram nos últimos anos, mantendo suas operações no vermelho e recorrendo a empréstimos para evitar o fechamento”, explica Denis Barroso Alberto, sócio do Barroso Advogados Associados e especialista em recuperação empresarial.

Recuperação judicial deixa de ser exceção e vira estratégia

Diante desse cenário, a recuperação judicial ganha protagonismo como instrumento de reorganização empresarial. Diferentemente da percepção comum, entrar com o pedido não significa falência iminente, mas sim uma tentativa estruturada de reorganizar dívidas, preservar a operação e manter empregos.

O mecanismo permite suspender execuções, renegociar passivos e construir um plano de recuperação com credores sob supervisão judicial, criando condições para a continuidade das atividades.

“As empresas precisam reavaliar sua estrutura organizacional, considerando não apenas a recuperação judicial, mas também opções como reestruturação interna e negociação com credores”, alerta Benito Pedro Vieira Santos, sócio da Avante Assessoria Empresarial.

O papel decisivo da informação na reestruturação

Apesar da relevância do instrumento jurídico, especialistas apontam que o sucesso da recuperação judicial depende, cada vez mais, da qualidade das informações disponíveis para a tomada de decisão.

Para Gabriel Capano, CEO da Hubcount BI, a ausência de dados estruturados é um dos principais fatores que comprometem os processos de reestruturação.

“Não existe recuperação eficiente sem dados confiáveis. A empresa precisa saber exatamente quanto deve, para quem deve, qual é sua capacidade de geração de caixa e quais cenários são possíveis. Sem isso, qualquer negociação vira tentativa e erro”, afirma.

Segundo ele, muitas empresas chegam ao processo sem o mínimo de organização financeira e operacional, o que dificulta tanto a negociação com credores quanto a execução do plano.

“Muitas empresas ainda não têm o básico estruturado. Sem dados organizados e sem processos claros, não adianta buscar soluções complexas. O problema não está na recuperação judicial, está na falta de informação confiável para tomar decisão”, diz.

Tecnologia e BI ganham protagonismo na recuperação

Nesse contexto, o uso de ferramentas de business intelligence (BI) deixa de ser diferencial e passa a ser um fator crítico para a sobrevivência. Essas plataformas permitem consolidar dados, gerar análises em tempo real e apoiar decisões estratégicas com maior precisão.

Na prática, empresas que investem em estrutura informacional conseguem negociar com mais transparência, antecipar riscos, reorganizar o fluxo de caixa e priorizar decisões com maior assertividade. Sem essa base, mesmo processos juridicamente bem estruturados podem perder eficiência ao longo do tempo.

Recuperação exige planejamento e gestão contínua

Além do acesso à informação, especialistas reforçam que a recuperação judicial deve ser conduzida com planejamento estratégico, disciplina financeira e acompanhamento profissional constante.

“Em momentos de crise, é fundamental que as empresas compreendam que nenhuma organização está imune a problemas financeiros, e que estes podem surgir a qualquer momento. Investir em controles e gestão adequados é crucial para identificar e corrigir pontos de vulnerabilidade e garantir que o negócio se mantenha competitivo no mercado”, destaca Denis Barroso.

Recorde acende alerta, mas também aponta caminhos

O avanço recorde das recuperações judiciais no Brasil funciona como um sinal claro de alerta para o ambiente empresarial, mas também evidencia uma mudança de mentalidade. A reestruturação deixou de ser vista apenas como último recurso e passou a ser encarada como uma etapa estratégica de reorganização.

Quando conduzida com transparência, governança e base sólida de dados, a recuperação judicial pode representar um recomeço estruturado e sustentável. Por outro lado, a falta de planejamento e de informação tende a acelerar o agravamento da crise.

Em um cenário cada vez mais desafiador, a diferença entre recuperação e falência está menos no instrumento jurídico e mais na capacidade de gestão, estratégia e uso inteligente dos dados.