24 de junho de 2026
Retorno ao escritório ganha força e ação do Itaú reforça tendência de revisão do trabalho híbrido
Nos últimos meses, importantes empresas brasileiras anunciaram mudanças em suas políticas de trabalho híbrido. O Itaú comunicou que elevará a exigência de presença física de seus funcionários a partir de 2028: colaboradores em regime híbrido passarão a trabalhar três dias por semana no escritório, enquanto superintendentes terão quatro dias presenciais e diretores já seguem esse modelo mais intenso de presença.
Outras instituições financeiras e grandes companhias também vêm ampliando gradualmente os dias de trabalho presencial. O movimento sinaliza uma nova fase do mercado de trabalho, marcada menos pela adoção acelerada do home office e mais pela busca de modelos capazes de equilibrar produtividade, integração das equipes e flexibilidade.
A discussão ganhou força porque o trabalho remoto, que se consolidou durante a pandemia, passou a ser analisado sob uma perspectiva mais ampla. Empresas relatam desafios relacionados à gestão de equipes, cultura organizacional, segurança da informação e desenvolvimento profissional dos colaboradores. Por outro lado, trabalhadores destacam ganhos de qualidade de vida, redução de custos com deslocamento e maior equilíbrio entre vida pessoal e profissional.
Para Tatiana Gonçalves, CEO da Moema Medicina do Trabalho, o cenário atual representa um processo natural de amadurecimento das relações de trabalho. “Por mais que os modelos híbrido e remoto sejam atrativos, tanto empresas quanto trabalhadores não estavam preparados para uma mudança tão abrupta. O que vemos hoje é a consequência de falta de planejamento, orientação e adaptação. Não existe um único culpado. É uma falha sistêmica de preparo”, afirma.
Segundo a especialista, o debate atual não deve ser tratado como uma disputa entre presencial e remoto, mas como um esforço das organizações para encontrar formatos sustentáveis de gestão. “As empresas estão aprendendo que a flexibilidade exige processos, tecnologia, acompanhamento e capacitação de lideranças. Sem isso, qualquer modelo tende a apresentar dificuldades”, acrescenta.
Monitoramento e produtividade: a realidade por trás do home office
Uma das grandes polêmicas envolvendo o trabalho remoto é a forma como a produtividade é avaliada. Algumas empresas utilizam métricas digitais detalhadas: monitoramento da memória e do uso do computador, quantidade de cliques, abertura de abas, inclusão de tarefas em sistemas internos e registro de chamados. Para muitos colaboradores, a amplitude desse acompanhamento é surpreendente. “Nem todos percebem que existem ferramentas capazes de medir cada movimento, mesmo fora do escritório. Isso gera desconforto e desconfiança”, explica Tatiana Gonçalves.
Esses episódios reacendem um debate antigo: o home office e o trabalho híbrido estão realmente em crise ou é apenas uma fase de ajuste?
Home office e híbrido: o desejo versus a prática
Mas, se é um anseio dos trabalhadores, por que as empresas relutam em adotar esse modelo? Ocorre que a transição para o modelo híbrido enfrenta diversos desafios, tanto do ponto de vista estrutural quanto organizacional. A resistência de muitos empregadores é um dos principais obstáculos. Após a pandemia, quando as empresas foram obrigadas a adotar o home office, muitas começaram a experimentar o trabalho híbrido. Contudo, a implementação efetiva desse modelo exige adaptações significativas nas políticas internas, infraestrutura tecnológica e na organização dos contratos de trabalho.
Segundo Mourival Boaventura Ribeiro, sócio da Boaventura Ribeiro Advogados Associados, “depois da pandemia, as empresas passaram do trabalho remoto para o híbrido, e agora precisam adaptar-se às novas regras legais”. A sanção da Lei nº 14.442/22, que regulamenta o trabalho híbrido e remoto, trouxe mudanças importantes, mas a adaptação a essas novas regras tem sido lenta para muitas empresas, que enfrentam dificuldades em ajustar suas estruturas para garantir a eficiência do modelo híbrido.
Entre os principais desafios da implementação do trabalho híbrido e home office, destaca-se a questão da infraestrutura. Para garantir esses modelos funcionais, é necessário revisar políticas de trabalho, oferecer tecnologia adequada para a comunicação remota e presencial, e garantir que contratos de trabalho estejam adaptados às novas exigências legais. A segurança da informação também é uma preocupação central, especialmente quando os colaboradores trabalham remotamente e acessam sistemas corporativos de casa. A empresa precisa garantir que as ferramentas e os dispositivos usados pelos colaboradores estejam protegidos contra riscos cibernéticos.
Júlio Rodrigues, diretor de Inovação da Confirp Contabilidade, alerta: “Quando um colaborador trabalha remotamente, a empresa precisa garantir que seu equipamento esteja protegido contra vírus e outros riscos. Caso contrário, o risco de ataques cibernéticos pode comprometer a segurança da companhia.”
Resistência dos empregadores e reconfiguração da gestão
Muitos líderes de empresas ainda não se sentem confortáveis com a ideia de não estarem fisicamente presentes para supervisionar suas equipes. Além disso, a falta de contato constante pode gerar uma sensação de desconexão, dificultando o engajamento e a colaboração entre os membros da equipe.
Tatiana Gonçalves, CEO da Moema Medicina do Trabalho, afirma que a escolha de quem vai para o modelo híbrido ou home office de trabalho deve ser feita pelos gestores diretos de cada equipe, avaliando as condições do ambiente de trabalho de cada colaborador. A adoção do trabalho híbrido exige autonomia, responsabilidade e uma compreensão detalhada das condições em que cada colaborador se encontra.
A importância de adaptar-se às novas normativas
Além das questões estruturais e culturais, as empresas também precisam adaptar-se a novas normativas legais. A Lei nº 14.442/22, que regulamenta o trabalho híbrido e remoto, trouxe mudanças que flexibilizam o controle de jornada para trabalhadores remotos. No entanto, a implementação dessas mudanças tem sido um processo lento e difícil para muitas empresas.
Tatiana Gonçalves também destaca a importância de as empresas observarem as exigências das Normas Regulamentadoras, especialmente a NR-1, relacionada ao gerenciamento de riscos ocupacionais, e a NR-17, que trata da ergonomia. “Mesmo no trabalho remoto, a empresa continua tendo responsabilidades relacionadas à saúde e à segurança dos colaboradores. A avaliação ergonômica, a orientação adequada e a gestão dos riscos ocupacionais são fundamentais para reduzir afastamentos e passivos trabalhistas”, explica.
Além disso, especialistas alertam que a consolidação dos modelos híbridos depende de uma revisão constante dos contratos de trabalho, políticas internas e mecanismos de acompanhamento, garantindo conformidade com a legislação e segurança jurídica para empresas e trabalhadores.
O futuro do trabalho: um equilíbrio entre presencial e híbrido
Apesar dos desafios, o trabalho híbrido e o home office continuam sendo opções relevantes para muitas empresas que buscam reter talentos e melhorar a satisfação de seus colaboradores. Contudo, é claro que a adoção exige paciência, adaptação e aprendizado contínuo por parte das organizações.
O futuro do trabalho está sendo redesenhado. No entanto, o caminho para uma transição efetiva ainda está repleto de desafios. Adaptar-se às novas normas legais, garantir infraestrutura adequada e criar políticas internas que atendam tanto às necessidades da empresa quanto às dos colaboradores são passos essenciais para o sucesso de qualquer modelo de trabalho.
Em última análise, a flexibilidade e a adaptação seguem como fatores centrais para que as empresas consigam equilibrar o trabalho híbrido, home office ou presencial, garantindo produtividade, segurança e bem-estar para todos.
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