29 de julho de 2026
Safra forte, caixa fraco: por que as recuperações judiciais dispararam no agronegócio
Enquanto o Brasil caminha para mais uma safra recorde de grãos, cresce também um indicador que revela a fragilidade financeira do campo. Em 2025, produtores rurais e empresas do agronegócio protocolaram 1.990 pedidos de recuperação judicial, o maior número desde o início da série histórica da Serasa Experian, em 2021. O volume representa um crescimento de 56,4% em relação aos 1.272 pedidos registrados em 2024 e é quase quatro vezes superior ao observado em 2023, quando foram contabilizadas 534 solicitações.
O contraste evidencia um dos principais paradoxos vividos pelo agronegócio brasileiro. Embora a produção continue elevada e a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) estima que a safra brasileira de grãos 2025/26 deve alcançar cerca de 360 milhões de toneladas, mantendo a expectativa de um novo recorde histórico, muitos produtores enfrentam dificuldades para transformar produtividade em rentabilidade. A combinação entre custos elevados, juros altos, crédito mais restrito e oscilações nos preços das commodities tem comprimido as margens e aumentado o endividamento do setor.
Até julho de 2026, ainda não haviam sido divulgados os números consolidados das recuperações judiciais do primeiro semestre, mas especialistas avaliam que o ambiente permanece desafiador, sem sinais claros de reversão estrutural.
Para Denis Barroso, sócio da Barroso Advogados Associados e especialista em recuperação empresarial, o problema atual está muito mais relacionado à estrutura financeira do que à capacidade produtiva.
“O produtor não está necessariamente produzindo menos. Em muitos casos, a produtividade continua elevada. O problema é que ele recebe menos por sua produção enquanto os custos para plantar, financiar e operar cresceram significativamente. Quando se somam insumos caros, crédito restrito, juros elevados e preços voláteis das commodities, a margem financeira acaba sendo comprimida”, afirma.
Juros elevados mudaram a dinâmica do financiamento rural
O cenário de crédito no agronegócio sofreu mudanças profundas nos últimos anos. A manutenção da taxa básica de juros em patamar elevado aumentou o custo das operações financeiras, enquanto bancos e instituições passaram a adotar critérios mais rigorosos para concessão de crédito, exigindo mais garantias e reduzindo a exposição ao risco.
Segundo Barroso, essa combinação alterou completamente a dinâmica financeira do setor. “Hoje o custo do dinheiro se tornou um dos maiores desafios para o agronegócio. Muitos produtores renegociaram dívidas nos últimos anos acreditando em um cenário diferente daquele que acabou se consolidando. Com crédito mais caro e mais seletivo, muitos passaram a enfrentar dificuldades para manter o capital de giro e financiar novas safras.”
O especialista ressalta que os efeitos vão além das propriedades rurais. “Quando o crédito desacelera no agronegócio, toda a cadeia produtiva sente os impactos. Cooperativas, distribuidores de insumos, tradings, transportadoras, fabricantes de máquinas e até instituições financeiras regionais acabam sendo afetados pela redução da circulação de recursos.”
Os sinais dessa deterioração também aparecem nos indicadores de inadimplência. De acordo com o boletim mais recente da Serasa Experian, 8,2% dos produtores rurais apresentavam atrasos superiores a 180 dias em seus compromissos financeiros, demonstrando que a pressão sobre o caixa permanece elevada mesmo em um ambiente de boa produção agrícola.
Produção recorde não significa saúde financeira
Embora o agronegócio continue sendo um dos principais motores da economia brasileira, especialistas alertam que a eficiência operacional deixou de ser suficiente para garantir equilíbrio financeiro.
“A competitividade do produtor brasileiro continua elevada sob o ponto de vista produtivo. O problema é que eficiência operacional não garante sustentabilidade financeira quando o custo do capital cresce de forma significativa. Hoje muitos produtores conseguem colher boas safras, mas encontram dificuldades para preservar margem e gerar caixa”, afirma Denis Barroso.
Segundo ele, parte desse cenário decorre do ciclo de expansão do crédito observado nos últimos anos. “Houve um período em que o financiamento era mais abundante e diversas decisões de investimento foram tomadas considerando condições que mudaram completamente. Com juros mais elevados, redução da liquidez e maior cautela das instituições financeiras, muitos produtores passaram a carregar uma estrutura de endividamento incompatível com a geração atual de caixa.”
Esse movimento também modificou o comportamento das instituições financeiras. “Os bancos estão mais criteriosos na análise de risco. Além de reduzir a oferta de crédito em algumas modalidades, passaram a exigir garantias mais robustas e cobrar custos maiores nas operações. Isso limita novos investimentos e dificulta a renovação do capital de giro das empresas”, complementa o advogado.
Na prática, explica Barroso, esse processo cria um efeito multiplicador sobre toda a economia ligada ao agronegócio. “Quando o crédito diminui, os investimentos são adiados. Isso reduz a compra de máquinas, equipamentos, insumos e serviços, afetando fornecedores e toda a cadeia produtiva.”
O que explica o avanço das recuperações judiciais?
Embora cada empresa tenha sua realidade financeira, especialistas apontam que o aumento dos pedidos de recuperação judicial decorre da combinação de diversos fatores que passaram a atuar simultaneamente sobre o agronegócio nos últimos anos. Entre os principais estão:
- manutenção dos juros em patamar elevado;
- aumento do custo de produção, especialmente de insumos e defensivos;
- maior volatilidade dos preços das commodities agrícolas;
- redução da liquidez do crédito rural;
- maior rigor das instituições financeiras na concessão de financiamentos;
- elevado nível de endividamento acumulado após anos de expansão do crédito.
Esse conjunto de fatores fez com que empresas produtivas passassem a enfrentar dificuldades para manter o fluxo de caixa, mesmo apresentando bons resultados operacionais.
Recuperações judiciais avançam em toda a economia
Embora o agronegócio concentre um dos maiores crescimentos nas recuperações judiciais, o movimento reflete um ambiente econômico mais amplo. Segundo a Serasa Experian, 2.273 empresas de diferentes setores recorreram à recuperação judicial em 2025, o maior número desde o início da série histórica do indicador.
Ao mesmo tempo, o país também registrou níveis elevados de inadimplência empresarial, com milhões de empresas enfrentando dificuldades para honrar seus compromissos financeiros, resultado de um cenário marcado pelo alto custo do crédito, desaceleração econômica e maior seletividade na concessão de financiamentos.
Na avaliação de Denis Barroso, o aumento das recuperações judiciais revela um ambiente macroeconômico mais desafiador, que vai muito além do setor agropecuário. “Estamos diante de um cenário em que praticamente todos os segmentos convivem com crédito mais caro, maior seletividade dos bancos e custos financeiros elevados. O agronegócio chama atenção pelos números, mas essa pressão está presente em praticamente toda a economia.”
Ele destaca que a recuperação judicial não deve ser encarada como solução para problemas exclusivamente financeiros. “A recuperação judicial é um importante instrumento de reorganização empresarial, mas não pode ser vista como estratégia inicial. Quando utilizada sem planejamento ou no momento inadequado, ela tende apenas a prolongar dificuldades que poderiam ter sido enfrentadas anteriormente.”
Segundo Barroso, muitas empresas deixam para agir apenas quando a situação financeira já se tornou crítica. “O erro mais frequente é esperar que a crise se torne praticamente insolúvel. Em diversos casos ainda existem alternativas, como renegociação estruturada das dívidas, revisão da operação, venda de ativos não estratégicos e busca por novos investidores. Quanto mais cedo essas medidas forem avaliadas, maiores são as chances de preservar a atividade empresarial.”
Para isso, acrescenta o especialista, é indispensável conhecer com precisão a situação financeira da empresa. “Antes de qualquer decisão, é preciso compreender o nível de endividamento, a capacidade real de geração de caixa e quais passivos efetivamente comprometem a continuidade do negócio. Sem esse diagnóstico, qualquer medida acaba sendo tomada por tentativa e erro.”
Reestruturação deve começar antes da crise
Para Benito Pedro, sócio da Avante Assessoria Empresarial e especialista em reestruturação de empresas, o atual cenário exige uma mudança na forma como empresários administram capital e endividamento.
“O ambiente econômico ficou muito mais exigente. Empresas que antes conseguiam administrar passivos apenas renovando operações de crédito hoje precisam trabalhar com planejamento financeiro permanente, gestão de caixa e avaliação constante da estrutura de capital.”
Segundo ele, a recuperação judicial deve ser considerada apenas depois que outras possibilidades tiverem sido analisadas. “Antes de recorrer ao Judiciário, é fundamental avaliar alternativas como renegociação com credores, reestruturação operacional, revisão de custos, venda de ativos e até a entrada de novos investidores. A recuperação judicial pode ser necessária em alguns casos, mas deve fazer parte de uma estratégia estruturada e não representar a primeira reação diante das dificuldades.”
Benito destaca que muitas empresas ainda enxergam a gestão financeira apenas como controle de despesas, quando o momento exige uma visão muito mais estratégica. “Hoje o empresário precisa acompanhar indicadores financeiros com a mesma atenção dedicada à produção e às vendas. O desafio deixou de ser apenas crescer; passou a ser crescer de forma sustentável, preservando liquidez e capacidade de investimento.”
Desafio deve continuar ao longo de 2026
Mesmo com perspectivas positivas para a produção agrícola, especialistas avaliam que o ambiente financeiro continuará exigindo cautela durante o restante de 2026. A evolução das taxas de juros, o comportamento das commodities no mercado internacional e a disponibilidade de crédito serão determinantes para a recuperação da capacidade de investimento do setor.
Enquanto essas variáveis permanecem pressionadas, cresce a importância do planejamento financeiro, da gestão de riscos e da reestruturação preventiva para evitar que dificuldades temporárias evoluam para situações de insolvência.
“O agronegócio brasileiro continua extremamente competitivo e possui fundamentos sólidos. O desafio, agora, é fortalecer também a estrutura financeira das empresas. Quem conseguir antecipar riscos, reorganizar sua estrutura de capital e manter disciplina na gestão estará mais preparado para atravessar esse período de maior pressão”, conclui Denis Barroso.
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