28 de julho de 2026

Recuperar para crescer: judiciais ou extrajudiciais? Empresas recorrem a diferentes estratégias para sair da crise

 

Em um ambiente marcado por juros elevados, crédito restrito e pressão sobre o consumo, o número de empresas brasileiras em situação de estresse financeiro segue em trajetória de alta no primeiro trimestre de 2026. Levantamentos de mercado indicam crescimento nos pedidos de recuperação judicial e na adoção de soluções extrajudiciais, refletindo um cenário de custo de capital elevado, margens comprimidas e maior seletividade das instituições financeiras.

A expectativa de especialistas é de que esse movimento se estenda ao longo de 2026, especialmente em setores como varejo, indústria e serviços, que convivem com aumento de despesas operacionais, dificuldade de repasse de preços e pressão sobre o capital de giro.

Mais do que instrumentos de sobrevivência, a recuperação judicial e a extrajudicial passaram a ser usadas como ferramentas estratégicas de reorganização financeira e reposicionamento operacional. Casos recentes envolvendo grandes companhias, como GPA e Raízen, reforçam essa tendência ao adotarem modelos extrajudiciais para negociar bilhões em dívidas, preservar a operação e evitar desgaste de imagem.

“A recuperação judicial ou extrajudicial pode ser um importante e valioso instrumento para ajudar na solução de qualquer empresa que está quase quebrada, podendo auxiliar em muitos aspectos, principalmente na reorganização do passivo e da administração da empresa”, afirma Denis Barroso Alberto, sócio do Barroso Advogados Associados.

Dois caminhos, um mesmo objetivo

Apesar das diferenças, os dois modelos têm o mesmo objetivo: evitar a falência, reorganizar dívidas e permitir a continuidade das operações. A escolha, no entanto, envolve análise do estágio da crise, perfil dos credores e nível de governança.

A recuperação extrajudicial se destaca pela negociação direta com credores e menor exposição pública. O plano é construído de forma privada e depois homologado pela Justiça, garantindo flexibilidade, preservação da imagem e agilidade.

Por outro lado, há limitações: não inclui dívidas trabalhistas, não suspende automaticamente execuções e depende de adesão mínima de credores.

“O modelo extrajudicial é interessante quando a empresa ainda consegue dialogar com seus principais credores e manter a operação sob controle”, explica Denis Barroso. “Ele exige um nível de organização e de relacionamento que nem todas as empresas conseguem manter em estágios mais avançados da crise.”

Já a recuperação judicial envolve maior intervenção do Judiciário, com administrador judicial, suspensão temporária de execuções e inclusão de dívidas trabalhistas. Exige aprovação em assembleia de credores e maior transparência.

Em contrapartida, oferece proteção mais ampla e estrutura mais robusta para reorganização do passivo, sendo indicada para situações mais complexas.

“A recuperação deve ser utilizada em momentos e aspectos específicos que precisam ser avaliados caso a caso. Se usada corretamente, com profissional técnico especializado, pode trazer enormes benefícios e evitar que a empresa quebre”, complementa Denis Barroso.

Crise começa na gestão, não no jurídico

Especialistas são unânimes ao afirmar que a origem da crise raramente é jurídica. Na maioria dos casos, ela começa na gestão e se agrava pela falta de reação no tempo adequado.

Segundo Benito Pedro Vieira Santos, CEO da Avante Assessoria Empresarial, a recuperação é o estágio final de um processo de deterioração que se inicia quando a empresa perde a capacidade de leitura do próprio negócio.

“Ela ocorre quando o caixa deixa de ser gerido com precisão, as margens se comprimem sem reação proporcional, o ciclo financeiro se alonga e o endividamento cresce mais rápido que a geração operacional. Nesse momento, a tomada de decisão passa a ser reativa”, explica.

Ele destaca falhas de governança como fator crítico. “É comum encontrar empresas sem orçamento confiável, sem indicadores consistentes e sem política clara de priorização de pagamentos. Nesse estágio, o problema deixa de ser apenas financeiro e passa a ser também de comando e execução.”

Sinais de alerta e o custo da inércia

Antes da recuperação, surgem sinais claros de deterioração. O principal é a perda de previsibilidade de caixa, com dependência crescente de capital caro.

“Quando a empresa precisa renegociar passivos de forma recorrente apenas para manter a rotina funcionando, isso já indica que a crise pode estar deixando de ser conjuntural para se tornar estrutural”, afirma Benito.

Outros sinais incluem piora das margens, dificuldade de geração de caixa, pressão de fornecedores e atrasos recorrentes. “A diferença entre uma crise administrável e uma crise estrutural está na capacidade de reagir a tempo. Quando a empresa posterga decisões duras, ela transforma um desequilíbrio pontual em fragilidade permanente”, reforça.

Estratégia, comunicação e negociação

Em cenários críticos, o alinhamento entre estratégia, comunicação e negociação é decisivo. “A estratégia define o que é viável. A comunicação sustenta a credibilidade. E a negociação cria espaço para execução. Quando esses três vetores não estão alinhados, a empresa perde força na mesa com credores”, explica Benito.

A estratégia deve ser baseada em dados e clareza operacional. A comunicação precisa ser transparente: “Excesso de otimismo gera desconfiança, mas silêncio ou mensagens contraditórias agravam o problema”, afirma. A negociação depende de consistência. “Credores aceitam alongamentos quando percebem racional econômico e capacidade de execução.”

Nem todo processo de recuperação resulta em reestruturação efetiva. Muitas empresas apenas aliviam o curto prazo sem resolver causas estruturais.

“A diferença central está em enfrentar a origem do problema, e não apenas seus efeitos”, afirma Benito. Uma reestruturação bem-sucedida exige diagnóstico realista, plano exequível e governança. “Sem isso, a recuperação vira apenas uma moratória formal.”

Tendência para 2026

Com juros elevados e crédito restrito, a tendência é de aumento das reestruturações em 2026. Empresas mais alavancadas enfrentam vencimentos relevantes. “O impacto foi muito grande para empresas que já enfrentavam dificuldades antes da pandemia e também para aquelas que recorreram a crédito mais caro”, afirma Benito Pedro.

Para Denis Barroso, o cenário exige mudança de postura. “As empresas precisam reavaliar sua estrutura organizacional e considerar alternativas como reestruturação interna, negociação com credores e recuperação judicial.”

A escolha entre recuperação judicial e extrajudicial deve ser estratégica, refletindo nível de organização e governança. Empresas que monitoram caixa e mantêm diálogo com credores tendem a ter mais alternativas. A principal lição é que a crise não começa no jurídico, mas na gestão.

Quando bem conduzida, a recuperação pode representar recomeço estruturado. Quando mal executada, pode acelerar um desfecho já em curso. A diferença está no timing, na estratégia e na execução.

Site: Avante Assessoria Empresarial

Site: Barroso Advogados Associados