26 de dezembro de 2025

Recorde de recuperações judiciais no agronegócio revela crise de gestão e crédito no país 

 

Os pedidos de recuperação judicial no agronegócio brasileiro atingiram um patamar recorde no terceiro trimestre, com crescimento de cerca de 150% em relação ao mesmo período do ano passado, segundo dados da Serasa Experian. Trata-se do maior volume trimestral desde o início da série histórica da datatech, em 2021, além de uma alta de 11,15% na comparação com o segundo trimestre.

O avanço expressivo evidencia um cenário cada vez mais desafiador para produtores rurais e empresas do setor, marcado pela dificuldade de manter fluxo de caixa, honrar compromissos financeiros e reequilibrar estruturas de custo. A Serasa aponta que parte relevante dos pedidos está associada ao acúmulo de dívidas roladas ao longo dos últimos anos, muitas vezes sem redução de despesas ou revisão de investimentos e planos de expansão.

O aumento das recuperações judiciais também tem impactado diretamente o ambiente de crédito. Com mais empresas em situação de inadimplência ou reestruturação, bancos e instituições financeiras adotam critérios mais rigorosos para a liberação de recursos, o que restringe o financiamento não apenas no campo, mas em diversos setores da economia.

Efeitos que se estendem para além do agronegócio

Embora o agronegócio concentre os números mais expressivos, o movimento não se limita ao setor rural. Empresas de segmentos distintos, como Oi, Ducoco, Grupo St e Bombril, também recorreram recentemente à recuperação judicial, reforçando que o instrumento passou a fazer parte do cotidiano empresarial em um ambiente econômico mais adverso e instável.

O contexto macroeconômico contribui para esse cenário, com juros elevados, crédito mais caro, consumo ainda pressionado e incertezas globais que afetam cadeias produtivas inteiras.

“O mercado brasileiro, assim como muitos países ao redor do mundo, tem enfrentado grandes dificuldades para se recuperar pós-pandemia, com as guerras e agora com as taxações. As oscilações políticas e econômicas globais têm grande impacto no cenário econômico interno. Os principais players do mercado sobreviveram nos últimos anos, mantendo suas operações no vermelho e recorrendo a empréstimos para evitar o fechamento”, explica Denis Barroso, sócio da Barroso Advogados Associados e especialista em recuperação empresarial.

Recuperação judicial exige estratégia e gestão

Para especialistas, a recuperação judicial não deve ser encarada como solução automática ou atalho para resolver problemas estruturais. O uso do instrumento sem um plano consistente tende a prolongar a crise e dificultar a retomada sustentável do negócio.

“Em momentos de crise, é fundamental que as empresas compreendam que nenhuma organização está imune a problemas financeiros, e que estes podem surgir a qualquer momento. Investir em controles e gestão adequados é crucial para identificar e corrigir pontos de vulnerabilidade e garantir que o negócio se mantenha competitivo no mercado”, reforça Denis Barroso.
 

Nesse contexto, avaliar alternativas à recuperação judicial torna-se essencial. “As empresas precisam reavaliar sua estrutura organizacional, considerando não apenas a recuperação judicial, mas também opções como reestruturação interna e negociação com credores”, afirma Benito Pedro, sócio da Avante Assessoria Empresarial.

Ele ressalta que a decisão deve ser acompanhada de análise técnica e suporte especializado. “É importante ressaltar que, além da recuperação judicial, as empresas devem estar preparadas para explorar alternativas como a negociação direta com credores ou a busca por investidores, com o apoio de assessoria especializada. O acompanhamento profissional para entender as opções disponíveis e tomar decisões informadas é essencial nesse cenário de crise”, complementa.

O recorde de pedidos de recuperação judicial no agronegócio funciona como um sinal de alerta para toda a economia brasileira. Mais do que um fenômeno setorial, ele expõe a necessidade urgente de gestão financeira sólida, planejamento estratégico e revisão de modelos de crescimento. Em um ambiente de crédito mais restritivo, empresas que se anteciparem aos problemas e estruturarem suas decisões com responsabilidade terão maiores chances de atravessar a crise e sair fortalecidas.