26 de fevereiro de 2026
Escala 6×1: fim do modelo reacende debate sobre produtividade, custos e impacto fiscal no Brasil
A possível extinção da escala 6×1, modelo em que o trabalhador atua seis dias consecutivos com um dia de descanso, voltou ao centro da agenda no Congresso Nacional. Propostas como a PEC 148/2015, que prevê a redução gradual da jornada semanal de 44 para 36 horas sem redução salarial, e a PEC 8/2025, que propõe jornada de 36 horas distribuídas em quatro dias de trabalho, reacenderam o debate sobre os impactos econômicos e sociais da medida.
O tema ganhou força após experiências internacionais inspiradas no movimento “4-Day Week”, que associa jornadas reduzidas à melhora da qualidade de vida e da saúde mental. No entanto, especialistas das áreas contábil, empresarial e jurídica alertam que o fim da escala 6×1 pode produzir efeitos encadeados sobre custos, preços, competitividade e arrecadação pública.
Escala 6×1 e aumento do custo por hora trabalhada
Para Richard Domingos, diretor executivo da Confirp Contabilidade, a discussão sobre a escala 6×1 precisa ser conduzida com base técnica e visão sistêmica.
“O debate sobre qualidade de vida é legítimo e necessário. Porém, estamos em um cenário de desemprego historicamente baixo e dificuldade de contratação. Mudar a jornada sem avaliar impactos estruturais pode gerar efeitos econômicos e fiscais relevantes.”
Segundo ele, a redução da jornada com manutenção salarial eleva automaticamente o custo por hora trabalhada.
“Se a jornada diminui e o salário é mantido, o custo aumenta. Em um mercado já pressionado por escassez de profissionais, isso pode gerar inflação na mão de obra e parte desse aumento tende a ser repassado aos preços de produtos e serviços.”
O possível fim da escala 6×1, portanto, não afeta apenas relações trabalhistas. Pode influenciar diretamente a estrutura de custos das empresas e pressionar índices inflacionários.
Impactos da escala 6×1 sobre empresas e cadeias produtivas
Benito Pedro Vieira Santos, CEO da Avante Assessoria Empresarial, ressalta que a mudança na escala 6×1 ultrapassa o campo jurídico.
“Alterações no regime de trabalho não ficam restritas a um segmento específico. Atingem operações que dependem de cobertura contínua, como indústria, logística, varejo e serviços, e reverberam ao longo de cadeias de fornecedores e clientes.”
Na prática, segundo ele, o fim da escala 6×1 pode gerar três movimentos simultâneos:
- recomposição de horas produtivas por meio de contratação ou pagamento adicional
- elevação do custo fixo e aumento do ponto de equilíbrio
- pressão sobre preços e margens, especialmente em mercados com pouca capacidade de repasse
Escala 6×1 e o impacto mais severo nas médias e pequenas empresas
O debate sobre a escala 6×1 preocupa especialmente empresas de médio porte.
“São companhias que já operam com disciplina financeira, mas não têm a mesma flexibilidade de grandes grupos para absorver aumentos permanentes de custo. Com estruturas mais enxutas, qualquer mudança na organização do trabalho exige ajustes imediatos de capacidade e cobertura”, afirma Benito.
Ele alerta para a importância da modelagem financeira antes de qualquer decisão legislativa sobre a escala 6×1.
“A pergunta objetiva é qual o impacto no ponto de equilíbrio e na geração de caixa? Sem indicadores como produtividade por colaborador, custo por hora efetiva e margem de contribuição, a deterioração aparece primeiro no fluxo de caixa.”
No campo jurídico, Vivian Campos Massella, advogada e coordenadora trabalhista do Barroso Advogados Associados, aponta que o aumento real do custo do trabalho é a principal preocupação das empresas diante do possível fim da escala 6×1.
Setores intensivos em mão de obra, como comércio, serviços, vigilância e limpeza, estariam entre os mais impactados, especialmente micro e pequenas empresas com menor capacidade de absorção de custos.
Produtividade é o ponto central no debate sobre a escala 6×1
Para os especialistas ouvidos, a sustentabilidade do fim da escala 6×1 depende diretamente de ganhos consistentes de produtividade, desafio estrutural da economia brasileira.
Dados recentes indicam que o crescimento médio anual da produtividade no Brasil permanece abaixo de 0,5%, enquanto a média global supera 1% ao ano. Nesse contexto, reduzir jornada sem aumento de eficiência pode gerar descompasso entre custo e produção.
“Sem ganho de eficiência, a tendência é o repasse aos preços, pressionando a inflação. Isso pode levar a juros mais altos e desaceleração econômica”, apontam especialistas do Barroso Advogados Associados.
Escala 6×1 e impacto fiscal nas contas públicas
Além dos efeitos empresariais, o fim da escala 6×1 também pode produzir reflexos fiscais.
Richard Domingos destaca que o Brasil já convive com forte pressão sobre as contas públicas, em um cenário de elevado número de beneficiários de programas sociais e oscilações relevantes na população fora da força de trabalho.
“Quanto menor a base produtiva formal e maior o volume de benefícios contínuos, maior a pressão sobre arrecadação, endividamento e carga tributária.”
Para ele, o debate sobre a escala 6×1 deve estar conectado a uma agenda mais ampla de inclusão produtiva e formalização.
“Mais gente trabalhando formalmente significa mais renda, maior arrecadação e menor pressão sobre o Estado.”
Fim da escala 6×1: avanço social ou risco econômico?
Experiências internacionais mostram que jornadas reduzidas podem funcionar quando acompanhadas de alta produtividade, tecnologia e estabilidade econômica. No Brasil, porém, o cenário inclui elevada informalidade, gargalos estruturais e baixa eficiência média.
Benito resume o desafio sob a ótica empresarial:
“Independentemente do desfecho legislativo sobre a escala 6×1, as empresas precisam tratar o tema como agenda de produtividade e governança operacional. Mudanças estruturais exigem disciplina de indicadores e decisão baseada em dados.”
Ao final, os especialistas convergem em um ponto: a modernização das relações de trabalho é legítima, mas precisa ser gradual, planejada e sustentada por políticas que elevem produtividade e ampliem a base formal da economia.
“O trabalhador precisa de qualidade de vida. Mas o país também precisa de geração de renda, competitividade e equilíbrio fiscal. Sem planejamento, o risco é pressionar empresas, consumidores e as próprias contas públicas”, conclui Richard Domingos.
Relacionados