19 de agosto de 2026

Eleições de 2026 ampliam atenção sobre comportamento de empresários nas redes sociais

 

Com a aproximação das eleições de 2026 e a intensificação da polarização no ambiente digital, empresários e executivos precisam redobrar a atenção à forma como se posicionam nas redes sociais. Em um cenário no qual opiniões, comentários, curtidas e compartilhamentos podem alcançar grandes públicos em poucos minutos, a fronteira entre a manifestação pessoal de uma liderança e a imagem da empresa tornou-se cada vez mais difícil de estabelecer.
 

A questão ganhou relevância para a gestão da reputação corporativa. Mesmo quando uma publicação não representa oficialmente a empresa, a posição de um executivo pode ser associada à marca, especialmente quando se trata de seus principais porta-vozes. Por isso, além de estratégias de marketing e comunicação institucional, as organizações passaram a precisar de orientações claras sobre comportamento digital.
 

Para Rogério Passos, CEO da Link3 Marketing Digital, o principal desafio está justamente na proximidade entre a imagem pessoal das lideranças e a reputação das empresas. “Hoje não existe mais uma separação clara entre o executivo e a empresa nas redes sociais. A forma como um líder se posiciona, o que ele compartilha ou endossa, acaba sendo associado à marca. Muitas crises começam com algo aparentemente pequeno, como uma curtida ou um comentário, e rapidamente ganham proporções enormes”, afirma.
 

Ano eleitoral exige atenção redobrada

O período eleitoral tende a tornar esse cenário ainda mais sensível. Discussões políticas costumam gerar maior engajamento e também maior exposição de opiniões divergentes, enquanto os algoritmos das plataformas favorecem conteúdos capazes de provocar interação.
 

Para as empresas, entretanto, o desafio é dialogar com públicos que possuem diferentes posições políticas, sociais e culturais. “As pessoas falam cada vez mais para bolhas que pensam igual. Já as empresas precisam dialogar com públicos diversos. Quando uma marca se comunica como se estivesse falando apenas com um grupo ideológico, ela automaticamente assume um risco estratégico”, explica Passos.
 

Nesse contexto, uma das principais boas práticas é estabelecer previamente quais são os limites entre posicionamentos pessoais e manifestações institucionais. Isso não significa impedir que empresários ou executivos tenham opiniões políticas, mas criar critérios para reduzir a possibilidade de que suas manifestações sejam interpretadas como posições oficiais da organização.
 

Improviso pode transformar opinião em crise

Outro ponto de atenção é a reação imediata a temas que estejam em alta nas redes sociais. Em períodos de maior tensão política, uma publicação feita no calor do momento pode gerar repercussões muito diferentes daquelas imaginadas pelo autor.
 

“As empresas ainda acreditam que conseguem se posicionar de forma improvisada diante de temas polêmicos. Isso é extremamente perigoso. Comunicação precisa ser planejada, testada e alinhada à estratégia do negócio. Improviso hoje é sinônimo de risco”, destaca o CEO da Link3.
 

Segundo ele, o problema não está necessariamente em uma empresa ou liderança se posicionar sobre determinado assunto, mas na ausência de uma avaliação sobre contexto, público e possíveis consequências. “O erro não está em se posicionar. Está em não entender o ambiente em que se está se posicionando”, afirma.
 

Casos envolvendo grandes marcas nos últimos anos mostram como campanhas publicitárias, manifestações de executivos e conteúdos publicados nas redes podem ser interpretados a partir de diferentes perspectivas políticas. Uma mensagem originalmente planejada com determinado objetivo pode acabar incorporada a narrativas de grupos distintos, desencadeando críticas, boicotes ou discussões que ultrapassam o propósito inicial da comunicação.
 

“O ambiente está muito sensível. Qualquer leitura enviesada pode se transformar em crise. Por isso, toda ação de comunicação precisa passar por filtros sociais, culturais e estratégicos”, reforça Passos.
 

Cinco boas práticas para empresas e lideranças

Diante desse cenário, algumas medidas podem ajudar a reduzir riscos durante o período eleitoral:

  1. Estabelecer uma política de uso das redes sociais: empresas podem definir orientações sobre manifestações públicas de executivos, colaboradores e porta-vozes, deixando claros os limites entre opiniões pessoais e posicionamentos institucionais.
  2. Evitar reações impulsivas: antes de comentar, compartilhar ou publicar conteúdos relacionados a temas políticos ou controversos, é importante avaliar o contexto, o público e possíveis interpretações.
  3. Separar canais pessoais e institucionais: perfis corporativos devem seguir a estratégia de comunicação da empresa, enquanto lideranças precisam ter consciência de que seus perfis pessoais também podem impactar a reputação da organização.
  4. Preparar porta-vozes: media training e treinamento específico para redes sociais podem ajudar executivos a compreender riscos, escolher melhor a linguagem e lidar com situações de crise.
  5. Criar protocolos para crises digitais: a empresa deve saber previamente quem avalia uma publicação potencialmente problemática, quem responde pela comunicação e quais são os procedimentos diante de uma onda de críticas.

Governança também passa pela comunicação digital

Para Passos, políticas de comunicação e códigos de conduta não devem ser encarados como instrumentos de censura, mas como mecanismos de governança. “Políticas de comunicação não existem para censurar lideranças, mas para orientar boas práticas e proteger a empresa. Quando há clareza sobre limites e responsabilidades, o risco de crise diminui de forma significativa”, afirma.
 

A preocupação também deve alcançar a comunicação interna. Discussões políticas podem surgir entre colaboradores, mas a organização precisa evitar transformar o ambiente de trabalho em espaço de disputa ideológica ou de pressão por determinado posicionamento.
 

“O líder precisa ter consciência de que sua postura influencia toda a organização. Levar disputas ideológicas para dentro da empresa compromete não apenas a imagem institucional, mas também a segurança jurídica e a sustentabilidade do negócio”, conclui Rogério Passos.
 

Em um ano eleitoral marcado por intensa circulação de informações e opiniões nas plataformas digitais, a recomendação para empresas e lideranças é tratar as redes sociais como parte da estratégia de reputação. Planejamento, clareza de responsabilidades e preparo para situações de crise podem ajudar a preservar a imagem da organização sem impedir que seus executivos exerçam sua liberdade de expressão de forma responsável.