29 de julho de 2026

Fraudes, recuperações e governança: até onde vai a responsabilidade das auditorias

 

A sequência de casos recentes envolvendo grandes companhias e instituições financeiras reacendeu um debate central: qual é o papel das auditorias independentes diante de fraudes e crises empresariais?

O tema ganha força no avanço das recuperações judiciais. Dados da Serasa Experian indicam que o Brasil superou, em 2025, 2.400 pedidos, em meio ao alto endividamento corporativo, tendência que segue em 2026. Mais do que buscar culpados, o momento exige separar responsabilidades e identificar fragilidades.

Um erro comum é atribuir à auditoria um papel que ela não tem. “A responsabilidade da auditoria independente vai até onde vai o seu mandato técnico: obter segurança razoável de que as demonstrações financeiras estão livres de distorções relevantes, inclusive por fraude, mas não garantir sua inexistência”, afirma José Augusto Barbosa, CEO da Audcorp Auditoria e Assessoria S/S.

Na prática, o auditor avalia riscos e evidencia informações, mas não realiza investigação completa nem garante a detecção de todas as irregularidades. “A fraude, por si só, não prova falha do auditor. A responsabilização surge quando há omissão técnica, negligência ou ausência de evidência que sustente a opinião emitida”, explica.

Onde começa o problema: governança

A prevenção de fraudes começa na própria empresa. “A responsabilidade primária pela prevenção e detecção de fraude é da administração e da governança”, destaca Barbosa.

Falhas de controle, concentração de decisões e cultura permissiva criam o ambiente para irregularidades, coisas além de auditorias. “Em muitos casos, o colapso não decorre apenas de uma falha de auditoria, mas de um ambiente em que os controles eram facilmente contornáveis e a governança operava de forma mais formal do que efetiva.” A distinção é essencial: auditoria falha quando não executa seu papel; governança falha quando o problema nasce dentro da companhia.

Recuperações expõem fragilidade estrutural

O aumento das recuperações judiciais reflete mais fragilidades de gestão do que falhas de fiscalização. “O aumento das recuperações indica fragilidade de gestão, capital e governança, com empresas pressionadas por alavancagem, custo financeiro elevado e problemas de fluxo de caixa.”

Outro ponto é a demora na reação. “Em muitas empresas, o problema não é falta de informação, mas a incapacidade de transformar sinais em ação. A crise, nesses casos, é o resultado de decisões postergadas.”

IFRS 18: mais transparência, menos flexibilidade

A IFRS 18, que entra em vigor em 2027, deve aumentar a exigência na divulgação de resultados e reorganizar a forma de apresentação das demonstrações.

“O objetivo é aumentar a comparabilidade e reduzir a liberdade excessiva na construção do resultado”, afirma Barbosa. “Indicadores como EBITDA e lucros ajustados exigirão maior reconciliação com os números oficiais. Quem tratar a IFRS 18 como uma mudança estética corre o risco de manter exatamente o problema que ela busca corrigir: a distância entre narrativa e número”, complementa.

Controles internos como ativo estratégico e auditorias

Controles internos são o principal mecanismo de proteção. “A reputação de uma companhia se deteriora quando o mercado percebe que ela não sabe o que acontece dentro dela”, afirma. Isso envolve segregação de funções, governança de dados e monitoramento contínuo. Mais do que custo, são infraestrutura de credibilidade e ajudam empresas a reagirem melhor em crises.

Após recentes escândalos, investidores e conselhos passaram a exigir mais profundidade e transparência. “Hoje, investidores e conselhos querem entender como a opinião foi construída e até que ponto o auditor desafiou a administração”, diz Barbosa.

Também cresce a cobrança sobre as próprias auditorias. O resultado é um ambiente mais maduro. “A auditoria continua sendo essencial, mas não é suficiente sozinha. A confiança depende de um ecossistema que envolve governança, controles internos e responsabilidade compartilhada”, conclui.


Box | Agenda do C-Level

Prioridades imediatas:

  • Revisar ambiente de controles internos
  • Fortalecer governança e comitê de auditoria
  • Antecipar impactos da IFRS 18
  • Integrar finanças, risco e compliance
  • Monitorar liquidez e indicadores críticos

Site – Audcorp Auditoria e Assessoria SS