22 de agosto de 2025

A crise da saúde mental e financeira: um alerta para o mundo corporativo

 

Vivemos uma era de paradoxos. Em um mundo hiperconectado, onde a informação circula em tempo real e a tecnologia promete soluções para quase tudo, cresce silenciosamente uma das maiores epidemias do século: a crise da saúde mental. Burnout, ansiedade, depressão, insônia. Termos que antes habitavam os consultórios médicos hoje circulam livremente em rodas de conversa, redes sociais e, principalmente, nos corredores das empresas.

O médico Vicente Beraldi, da Moema Medicina do Trabalho, tem observado de perto essa transformação. “Nunca vimos uma geração tão pressionada. A sobrecarga de trabalho, aliada à superexposição nas redes sociais e à insegurança econômica, tem gerado uma avalanche de transtornos mentais. A saúde mental está em colapso, e isso já se reflete nas estatísticas de afastamento por causas psicológicas, que hoje superam muitas doenças físicas”, alerta.

Essa realidade escancara a necessidade de uma abordagem mais ampla e urgente nas políticas de bem-estar no trabalho. Em maio de 2025, um passo importante foi dado com a atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que passou a incluir os riscos psicossociais como fator de atenção nas empresas. A partir de 2026, organizações que não considerarem aspectos como estresse, assédio e esgotamento emocional estarão sujeitas a penalidades legais.

Mas há um fator muitas vezes esquecido, embora profundamente entrelaçado com a saúde mental: a saúde financeira dos colaboradores.

O dinheiro como fator de sofrimento psicológico

Os números não mentem. Um estudo da fintech Onze com a Icatu revelou que 70% dos brasileiros afirmam que problemas financeiros afetam sua saúde emocional. Mais de 50% dizem que o dinheiro é sua maior fonte de preocupação — à frente de saúde, trabalho e família. A ansiedade, causada por dívidas, inadimplência e insegurança financeira, cria um ciclo vicioso que agrava sintomas mentais e prejudica o desempenho profissional.

Vicente Beraldi reforça: “A instabilidade financeira gera um estresse crônico que corrói o bem-estar emocional. Isso se manifesta em quadros de depressão, crises de ansiedade e distúrbios do sono. É uma bomba-relógio que afeta não apenas a vida pessoal do trabalhador, mas também sua performance e relacionamento no ambiente corporativo.”

A Serasa confirma essa conexão: 83% dos endividados dizem sofrer de insônia e 74% têm dificuldade de concentração — impactos diretos no ambiente de trabalho.

A geração da crise da saúde mental: redes sociais e pressões invisíveis

Essa crise da saúde mental atinge especialmente a geração atual de trabalhadores, marcada por uma busca incessante por propósito e realização. As redes sociais, ao invés de conectarem, muitas vezes intensificam o sentimento de inadequação e comparação constante. A cada deslizar de dedo, metas inalcançáveis e estilos de vida idealizados surgem como padrões a serem seguidos — gerando frustração, baixa autoestima e um sentimento constante de insuficiência.

Além disso, o mundo do trabalho passou a exigir mais flexibilidade, disponibilidade 24/7 e múltiplas habilidades. Em troca, oferece instabilidade, vínculos precários e poucas garantias. É uma equação perversa que mina lentamente a saúde mental.

Reinaldo Domingos, presidente da Associação Brasileira de Profissionais de Educação Financeira (ABEFIN), destaca a importância de integrar a saúde financeira aos programas de bem-estar corporativo. “Trabalhadores motivados precisam de segurança financeira. Quando o salário não permite a realização de sonhos ou sequer cobre as necessidades básicas, o colaborador entra em um estado de frustração crônica. Isso afeta a produtividade e o clima organizacional”, explica.

Domingos defende a implementação de programas de educação financeira estruturados, como a Metodologia DSOP (Diagnosticar, Sonhar, Orçar e Poupar), que ensina os colaboradores a planejar seus gastos, eliminar dívidas e construir uma reserva. “Não se trata apenas de ensinar a economizar, mas de devolver o controle da vida financeira para as pessoas. Isso tem um impacto direto na saúde emocional”, completa.

Empresas como agentes de transformação

A inclusão dos riscos psicossociais na NR-1 representa uma virada de chave. As empresas agora têm a obrigação — e a oportunidade — de repensar suas estratégias de cuidado com os colaboradores. Oferecer apoio psicológico e orientação financeira deixou de ser um diferencial e passou a ser uma necessidade estratégica.

Vicente Beraldi ressalta que “a colaboração entre apoio psicológico e educação financeira é essencial para prevenir o adoecimento. A saúde mental é multifatorial, e o dinheiro, ou a falta dele, está no centro dessa equação.” Ele acrescenta que iniciativas corporativas que tratam o colaborador como um ser integral — com corpo, mente e finanças — tendem a gerar ambientes mais saudáveis, produtivos e inovadores.

Promover a educação financeira, oferecer suporte psicológico e criar ambientes mais humanos e empáticos não é apenas uma questão de compliance — é uma estratégia inteligente para aumentar a produtividade, reduzir o absenteísmo e reter talentos.

Investir no bem-estar integral é investir no futuro da organização. E, mais do que isso, é uma forma de responder com responsabilidade à maior crise silenciosa do nosso tempo: a crise da mente.